Sem o JT a imprensa do Brasil perde referência de ousadia e de liberdade de informação
Captei uma imagem de tristeza, a gráfica do Grupo Estado rodando a última edição do Jornal da Tarde que foi para as bancas hoje. Amanhã não mais terá o JT e isso cria um vácuo na imprensa de São Paulo, imprensa escrita que há pouco tempo sofreu a perda do JB no Rio de Janeiro. Eu mesmo atuei como estagiário e repórter no Jornal da Tarde na década de 70, antes de ir fazer cinema e TV, o JT que tinha o comando do Murilo Felisberto e uma equipe de ponta, inovando a linguagem e até o conteúdo do jornalismo no Brasil. Com certeza vou esquecer alguém, mas a escalação do time do JT tinha muitos craques em reportagem e redação, gente como Woyle Guimarães, Fernando Portela, Ezequiel Neves, Maurício Krubrusly, Carlos Brickmann, Sandro Vaia, além do capitão Murilo e do mais jovem da equipe-base, Randáu de Azevedo Marques, que viria a se tornar o primeiro editor de ecologia no Brasil. Para mim, que já era ligado em imagem, foi bom demais também ver ao vivo o trabalho de grandes fotógrafos como Oswaldo Maricato e Geraldinho Silva, entre outros, além do Milton Ferraz, que talvez tenha sido senão o primeiro, pelo menos o mais brilhante editor de fotografia de um jornal no país. Porisso também que nas bancas e nas redações de rádios e TVs o JT era disputado no dia a dia a tapa, por causa da informação, da qualidade do texto e da sua formatação de imagem ou design. Temos que lembrar com carinho, em termos de comunicação e de cidadania, de empresários como Ruy Mesquita que levaram adiante este empreendimento, mesmo na época do governo ditatorial, quando as matérias censuradas à última hora eram substituídas por receitas. A informação ficava de fora mas todo mundo ficava sabendo que ela havia sido censurada. Um fato de relevância na história da democracia brasileira, atenção, Comissão da Verdade.
O anúncio de mudança de portfólio do Grupo Estado não esconde a agonia que o JT já vinha sofrendo nos últimos anos. Os negócios da família Vieira de Carvalho estavam em queda livre, há uma década e meia o Estadão batia records aos domingos, com mais de 1,5 milhão de exemplares, ultimamente, raramente chegava a 200 mil. Mas o pior é a mudança de conteúdo, de um veículo heróico nas grandes causas públicas, da cidadania, da ecologia, o JT passou a ser um jornal a mais e isso também foi a sua causa mortis.
O câncer da autocensura
"O JT que chegou na Ditadura a ter um censor atuando direto dentro da redação, mesmo assim avançava edições de grande interesse público, cada vez mais, foi assim numa luta diária pela liberdade de informação que nasceu a editoria de meio ambiente, pioneira e inédita no jornalismo brasileiro", conta Randáu Marques: "Depois começou a se espalhar no universo das comunicações tupiniquins o vírus da autocensura, mais sutil e perigoso, que dá câncer e que a gente também pode detectar no atestado de óbito do JT. A liberdade ou a falta dela, esse é o foco da questão", constata o socioambientalista Randáu.
A última notícia
Após algumas semanas de boatos, agora é oficial: o Jornal da Tarde deixará de circular. Sua última edição irá para as bancas nesta quarta-feira. De acordo com nota do Grupo Estado, afirma que a decisão vai reforçar os investimentos em seu principal produto, o jornal O Estado de S.Paulo. “Hoje, o meio jornal é a segunda mídia mais importante para a publicidade, com o dobro de participação do terceiro colocado. Daí a estratégia de focar no Estadão, principal marca do grupo, e de investir em uma plataforma digital mais robusta e avançada”, afirmou Francisco Mesquita Neto, diretor presidente do Grupo Estado.
Com 46 anos de existência, o JT fez fama no meio jornalístico pelas inovações em design gráfico, texto e prestação de serviços, já antecipava no fim da semana a revista Exame, da Abril.
Antes do JT, o fim da circulação do Jornal do Brasil, em agosto de 2010, foi o episódio de maior repercussão na imprensa brasileira. No caso do JB, porém, a marca sobreviveu como um jornal na Internet, um dos mais acessados sites de jornalismo no país - www.jbonline.com.br - e o próprio jornal O Estado de São Paulo, centro do grupo que publicava o JT, já mantém com sucesso também na web o seu portal www.estadao.com.br Com certeza, há também a se considerar esta mudança de estrutura da mídia hoje em dia, com o crescimento, a velocidade e uma relativa maior liberdade da webcomunicação. Um jornal de verdade como foi o JT só sobrevive mesmo com liberdade de informação. (Antônio de Pádua Padinha)
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| A rodagem da última edição do JT marca a atualidade da mídia no Brasil |
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| A informação, as fotos e o design do JT fazem parte da história cult do país |
Fontes: http://exame.abril.com.br http://folhaverdenews.blogspot.com





















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